Sobre pêlos, olhares e correria.
por Bruno Kronka.
Agora corria, nu em pêlo. Pelo visto, aliás, ninguém o percebia. Percebiam apenas a situação dita real: seu corpo carregado sob o som da sirene e o escândalo visual do giroflex piscando. Pisca-piscava, ele, os olhos sem parar, sem pensar, sem sentir a mijada que lhe dava um “filhinho da puta!” de um cachorrinho. Perro de mierda! Mas bostas cagadas não voltam ao cu, pensou. Pensativo, notava: o desgraçadinho tinha levantado a perna pra fazer o serviço amarelo; e mais: encarava-o, sentado; foi a primeira vez que alguém (ou algum) deu-lhe atenção depois que o evento morte surrupiou-lhe parte da vida preservando-lhe, entretanto, nesse “formol da alma”, ou seja lá qual for o nome desse estado de existência em que se encontra. Encontra-se na rua principal da cidade, com carros atravessando as avenidas no mesmo célere ritmo de sempre, em meio a desconhecidos passos no mesmo ligeiro compasso que a pressa exigia. Pelo menos essa era sua exegese sobre as ruas daquela cidade de parcos costumes. Acostumou-se, assim, a ver como rotina pouco ou nenhum olhar mirando sua costumeiramente embaçada retina embriagada, que jamais refletiu tamanha atenção voltada para si. Ensimesmou-se com a angustiante novidade que despertava aquela criaturinha peluda, sua futura companhia. Companhia para quê? Aonde ir, se já ido? E afobou-se. Logo ele, que não tinha a menor pressa pra nada; serenidade baiana... E questionou-se (logo ele, que sempre teve certeza sobre a única dúvida que todos têm — sobre quando morreremos): conseguiria exercer alguma influência sobre o mundo em que ainda habitava, mesmo depois de morto? Nem ele sabia se aquela era a resposta sobre a existência de vida pós-morte. Nem se todos passavam por esse estágio de existência ou atingiam a consciência que ele estava experimentando. Mas sabia que era hora de fazer tudo quanto se absteve de fazer em sua passagem corporal por ali. Até onde o Tempo permitisse; por isso correria contra o tempo. Faria tudo o que pudesse, antes de um piscar de olhos. Sem ressentimentos nem pudor. Mas não sozinho. Nem seco.
sábado, 2 de agosto de 2008
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