sábado, 2 de agosto de 2008
Capítulo 7
por Bruno Kronka.
Agora corria, nu em pêlo. Pelo visto, aliás, ninguém o percebia. Percebiam apenas a situação dita real: seu corpo carregado sob o som da sirene e o escândalo visual do giroflex piscando. Pisca-piscava, ele, os olhos sem parar, sem pensar, sem sentir a mijada que lhe dava um “filhinho da puta!” de um cachorrinho. Perro de mierda! Mas bostas cagadas não voltam ao cu, pensou. Pensativo, notava: o desgraçadinho tinha levantado a perna pra fazer o serviço amarelo; e mais: encarava-o, sentado; foi a primeira vez que alguém (ou algum) deu-lhe atenção depois que o evento morte surrupiou-lhe parte da vida preservando-lhe, entretanto, nesse “formol da alma”, ou seja lá qual for o nome desse estado de existência em que se encontra. Encontra-se na rua principal da cidade, com carros atravessando as avenidas no mesmo célere ritmo de sempre, em meio a desconhecidos passos no mesmo ligeiro compasso que a pressa exigia. Pelo menos essa era sua exegese sobre as ruas daquela cidade de parcos costumes. Acostumou-se, assim, a ver como rotina pouco ou nenhum olhar mirando sua costumeiramente embaçada retina embriagada, que jamais refletiu tamanha atenção voltada para si. Ensimesmou-se com a angustiante novidade que despertava aquela criaturinha peluda, sua futura companhia. Companhia para quê? Aonde ir, se já ido? E afobou-se. Logo ele, que não tinha a menor pressa pra nada; serenidade baiana... E questionou-se (logo ele, que sempre teve certeza sobre a única dúvida que todos têm — sobre quando morreremos): conseguiria exercer alguma influência sobre o mundo em que ainda habitava, mesmo depois de morto? Nem ele sabia se aquela era a resposta sobre a existência de vida pós-morte. Nem se todos passavam por esse estágio de existência ou atingiam a consciência que ele estava experimentando. Mas sabia que era hora de fazer tudo quanto se absteve de fazer em sua passagem corporal por ali. Até onde o Tempo permitisse; por isso correria contra o tempo. Faria tudo o que pudesse, antes de um piscar de olhos. Sem ressentimentos nem pudor. Mas não sozinho. Nem seco.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Capítulo 6

Sobre domingos, tempo e destino.
por Vitor Martinez.
Domingo. Acorda às nove e levanta às onze. Almoça à uma e sai da mesa às três. Encharca o bucho de tereré às cinco e fica na roda até às oito. Tudo parece mais carregado e mais lento. Até o ar é mais quente. Pura ilusão, mas o atingem como verdade. Lacrimeja os olhos de tanto fitar o nada. Formigam, mesmo não sendo possível. Sente a cabeça duplicar de peso. Domingo lhe parecia um exagero, era isso. Horas depois (com efeito mental de “muitas horas depois”), como se não fosse bastante, ainda conclui que está ficando velho. Conclui mesmo sem premissas. Nem precisa delas. Nem quer precisar. Every year is getting shorter. Pensamento cada vez mais recorrente. Coisa de progressão geométrica. E cada dia analisava-se mais, como se numa corrida para entender sua existência antes que fosse tarde. É verdade que se divertia sendo seu próprio psicólogo, e ainda economizava um troco. Mas ainda não descobrira por que sentia arrepios às seis da tarde, pontualmente, todos os dias. E por que invariavelmente olhava o relógio justo nessa hora, num silêncio tapado a vácuo. Não contara a ninguém, mas era por isso que deixara de usar o aparelho no pulso desde os doze anos. Isso lhe dava certo alívio durante o dia, ainda que na hora marcada acabasse por se deparar com qualquer outro temível marcador do tempo. Entretanto, mais surpreendente para ele era o fato de saber, desde os quatorze, que morreria aos vinte e cinco. Desde então vivia com essa certeza. E nem por isso botava mais pressa em seu viver. Conhecia seus medos e sabia que poderiam se tornar realidade. Já seus sonhos..., jamais foi ambicioso e, por isso mesmo, não havia o que se concretizar. Quase morreu quando mais jovem, é verdade. Várias vezes, várias doses, escapou por pouco, por um triz. Esses trizes lhe pouparam, e tinham seu valor reconhecido. Isso porque aquela visão da janela, de seu próprio corpo no chão, afogado na última dose de inércia, já lhe era há muito familiar; mas essa familiaridade só seria despertada aos vinte e cinco.
Capítulo 5
Sobre trocadilhos,imagens e morte
Por Bruno Kronka
Aqui,hoje.
Caríssima,
Tão rara quanto a sua beleza que me flagro sempre a fitar, mesmo que por vagas lembranças que me vêm em devaneios tolos como só, é a situação que cá se me apresenta. Jamais passei tamanho apuro em que nem as frases mais feitas de toda história das frases feitas me recorrem à mente. E só faço imaginá-la comigo, socorrendo-me, falando por mim. Foi formar-se a fila para dar à viúva os cumprimentos, os pêsames, as felicidades, ou seja lá o que se deseja nessas horas à mulher do finado, que eu comecei instantaneamente a tremer. Fico nervoso com a obrigação de ser solícito. Principalmente quando não serei útil. Mal conhecia o morto. Não imagino como convivia o casal. Pode ser até um alívio pra ela que aquele peso morto não mais esteja em suas costas. Trocadilho infame, sei. Mais infame é a desvergonha de toda essa gente que come e fala alto nem aí para a inconsolável cônjuge viva. Malemá ficam em silêncio pra ouvirem as preces cantadas pelo religioso, que agilmente faz seu papel e depois some velório afora. O preto predomina, mas é pura fachada. O luto mesmo é só da família. Os demais dissimulam bem. Logo depois nem se lembram da feição do pálido cadáver no caixão. Já a viúva decora cada traço de sua fisionomia final. Quando fecham o caixão, já no enterro, ela se desespera porque teme esquecer seu rosto. Deveriam fotografar! Mas é impróprio, Maria. Mais inoportuno que a própria morte?, pergunta dramaticamente, e todos, enfim, se calam. Não por respeito, de certo. Mais por mórbida curiosidade, que se alastrará nos boatos sobre o bafon à beira do túmulo protagonizado por uma pobre coitada desequilibrada. Ao menos eu mantenho alguma dignidade por não ceder à hipócrita cara-de-paisagem que todos estampam na face. (Me dá até calafrio pensar que quando chegar a minha vez pode ser que ninguém me conheça também. Por isso tenho dó deste morto. Ao menos, por ele chora essa mulher). Eu simplesmente oro, de olhos fechados, para que nenhum de nós morra antes do outro: só assim, creio, o desespero não consumirá quem ficar, e a solidão do pós-vida não matará o espírito de quem for; eu simplesmente oro para que São Nelson [Rodrigues] nos dê sabedoria para lidar com a iminência da morte e tratá-la, qual Francisco [de Assis], como irmã; eu simplesmente oro para que a sua beleza seja sempre tão rara, e freqüente, quanto os momentos que me deixam sem fala...
Beijos eternos,
Capítulo 4

Sobre arrependimentos, mediocridade e efemérides.
por Vítor Martinez.
De repente, nesses pensamentos que às vezes vêm a nossa cabeça e a gente simplesmente acha graça, se dá conta de que nunca pôs os pés numa Assembléia Legislativa. Disso, com certeza, não se arrependera. Tomada a satisfação igualmente repentina e prazerosamente efêmera, percebe, logo a seguir, que a beleza do momento tratava-se também de um esforço involuntário de sua cabeça oca, a fim de contrabalançar sua farta Lista de Arrependimentos; Subitem: Omissões. Ou seja, no meio de tantas outras preterições indesculpáveis, queria achar grande coisa não guardar remorso de uma besteira dessas. Não obstante as iniciais maiúsculas, é claro que não havia uma lista propriamente dita, com título em negrito e numeração ordinária. Apenas gostava de imaginar que tinha sua vida em perfeita organização, e listas lhe pareciam bem-vindas para tanto. E com subitens, então, é coisa fina mesmo! Mas o fato é que, se não se importava com o destino mundano nos limites de sua pátria amada, evidentemente jamais se atreveu a pisar numa Assembléia de Deus, onde a deliberação transcendental rolava solta nas sessões e seções. Supôs que numa dessas poderia ter descoberto o que diabos era “Pentecostes”, e essa desconfiança na hora lhe fez sentir certo arrependimento. Enganara-se na intuição, como de costume. Felizmente não é burro feito Otelo
para engordar com desconfiança seus sentimentos. Assim, além de magro, foi também efêmero, coisa rara para arrependimentos (que, nesse caso, não mais entraria na Lista). Efêmero porque seu interesse por Mané Pentecostes já era tão fugidio quanto a fugacidade com que o invocara; estava era interessado se isso lhe valeria um feriado nacional ou não. Poderia ter proposto aos deputados. Vida medíocre. Se arrependimento matasse...
Capítulo 3

Sobre infância, circos e ausências.
por Bruno Kronka.
Capítulo 2

Sobre filas, acaso e timidez.
por Vítor Martinez.
Estava na fila dos Correios. Longa o suficiente para reler os quadros de aviso e procurar erros de gramática. Era um hobby que lhe acalmava nessas horas de tensão. Tensão porque já reparara no aumento de seu pulso. Aliás, constantemente checa seus batimentos, percebe as oscilações. Jamais soube o significado. O fato é que instintivamente se recusava a observar por demais seus companheiros de espera, por medo de neles perceber os problemas monstruosos que fatalmente apresentarão à única atendente do caixa. Insistia em afirmar a si mesmo que não estava ali por acaso. Ora, se não fosse por acaso, por que seria? Pensou nisso, mas há tempos aprendeu a não deter tempo no que não dá frutos. Melhor se esquivar o quanto antes da pouco evitável conclusão de que sua própria existência é casual. Vitimização é para os fracos. Mas como justificar a releitura dos quadros de aviso? O momento seria mais pulsante, mais vivo, se engrenasse conversa com o senhor atrás dele, que não conseguia se entender com os papéis numa mão, a outra de bolso em bolso na procura dos papéis certos. Além do que, os Correios não cometem erro de gramática, por sorte algum ortográfico, num momento de pressa na digitação. Por um instante sentiu que aquele senhor, se não estivesse tão ocupado com os papéis, pensaria também no porquê de compartilhar uma fila nos Correios. Pelas evidências, reler quadros de avisos não era um bom hobby. Procurar papéis, sim. Aliás, há muito é até emprego, pode-se mesmo conceituar como a base do funcionalismo público. O senhor lhe cutuca o ombro, deixando cair alguns extratos: era sua vez.
Capítulo 1

Sobre nudez, milagres e omissões.
por Bruno Kronka.
Prólogo
Será um livro online. No modelo obra de ficção aberta: novelona virtual. O Vitão e eu seremos coautores. A idéia é que cada um escreva um "capítulo", em formato de conto/crônica.
Aqui vão os depoimentos de algumas celebridades e revista:
"Acho que a citação de Rivarol foi feita pensando no seu livro: 'o gênio e o talento: o historiador e o romancista fazem entre eles uma troca de verdades, de ficções e de cores para dar vida ao que não é mais'. Beijos do amigo de sempre, JÔ SOARES". "Quem quiser olhar, é só dar uma espiadinha". (Pedro Bial). "A obra do ano" (Veja).
Obviamente que nenhuma é sobre isso. Obrigado, mesmo assim.
Enfim, "O homem que tinha o espírito santo" tenta ser ao menos um livro, algum ano.
Odeio sinopses, mas: essa é a história de um rapaz que percebe que sua timidez praticamente impediu-lhe viver. O problema é que só se dá conta disso ao ver a aglomeração de pessoas em volta de seu corpo caído do alto de seu apartamento. Resolve, então, ajudar várias pessoas a tomarem atitudes corajosas postumamente. Ao mesmo tempo, atormentam-lhe ainda as situações que deixou de viver por preferir a omissão a tomar as rédeas de seu próprio destino. Será um livro emocionante, apaixonante, e que provocará o intimo de cada leitor por meio da rebuscada literatura (?) de seus autores.
E aí, vão encarar?
http://ohomemquetinhaoespiritosanto.blogspot.com
ou
http://socapitulos.blogspot.com
Título: O homem que tinha o espírito santo.
Autores: Vitor Martinez e Bruno Kronka - calouros no funcionalismo público e na literatura; veteranos na vida.
Editora: blogger.
Páginas: ...
