sexta-feira, 13 de junho de 2008

Capítulo 5


Sobre trocadilhos,imagens e morte

Por Bruno Kronka

Aqui,hoje.

Caríssima,

Tão rara quanto a sua beleza que me flagro sempre a fitar, mesmo que por vagas lembranças que me vêm em devaneios tolos como só, é a situação que cá se me apresenta. Jamais passei tamanho apuro em que nem as frases mais feitas de toda história das frases feitas me recorrem à mente. E só faço imaginá-la comigo, socorrendo-me, falando por mim. Foi formar-se a fila para dar à viúva os cumprimentos, os pêsames, as felicidades, ou seja lá o que se deseja nessas horas à mulher do finado, que eu comecei instantaneamente a tremer. Fico nervoso com a obrigação de ser solícito. Principalmente quando não serei útil. Mal conhecia o morto. Não imagino como convivia o casal. Pode ser até um alívio pra ela que aquele peso morto não mais esteja em suas costas. Trocadilho infame, sei. Mais infame é a desvergonha de toda essa gente que come e fala alto nem aí para a inconsolável cônjuge viva. Malemá ficam em silêncio pra ouvirem as preces cantadas pelo religioso, que agilmente faz seu papel e depois some velório afora. O preto predomina, mas é pura fachada. O luto mesmo é só da família. Os demais dissimulam bem. Logo depois nem se lembram da feição do pálido cadáver no caixão. Já a viúva decora cada traço de sua fisionomia final. Quando fecham o caixão, já no enterro, ela se desespera porque teme esquecer seu rosto. Deveriam fotografar! Mas é impróprio, Maria. Mais inoportuno que a própria morte?, pergunta dramaticamente, e todos, enfim, se calam. Não por respeito, de certo. Mais por mórbida curiosidade, que se alastrará nos boatos sobre o bafon à beira do túmulo protagonizado por uma pobre coitada desequilibrada. Ao menos eu mantenho alguma dignidade por não ceder à hipócrita cara-de-paisagem que todos estampam na face. (Me dá até calafrio pensar que quando chegar a minha vez pode ser que ninguém me conheça também. Por isso tenho dó deste morto. Ao menos, por ele chora essa mulher). Eu simplesmente oro, de olhos fechados, para que nenhum de nós morra antes do outro: só assim, creio, o desespero não consumirá quem ficar, e a solidão do pós-vida não matará o espírito de quem for; eu simplesmente oro para que São Nelson [Rodrigues] nos dê sabedoria para lidar com a iminência da morte e tratá-la, qual Francisco [de Assis], como irmã; eu simplesmente oro para que a sua beleza seja sempre tão rara, e freqüente, quanto os momentos que me deixam sem fala...

Beijos eternos,

do homem cujo espírito sua imagem santifica.

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