
Sobre domingos, tempo e destino.
por Vitor Martinez.
Domingo. Acorda às nove e levanta às onze. Almoça à uma e sai da mesa às três. Encharca o bucho de tereré às cinco e fica na roda até às oito. Tudo parece mais carregado e mais lento. Até o ar é mais quente. Pura ilusão, mas o atingem como verdade. Lacrimeja os olhos de tanto fitar o nada. Formigam, mesmo não sendo possível. Sente a cabeça duplicar de peso. Domingo lhe parecia um exagero, era isso. Horas depois (com efeito mental de “muitas horas depois”), como se não fosse bastante, ainda conclui que está ficando velho. Conclui mesmo sem premissas. Nem precisa delas. Nem quer precisar. Every year is getting shorter. Pensamento cada vez mais recorrente. Coisa de progressão geométrica. E cada dia analisava-se mais, como se numa corrida para entender sua existência antes que fosse tarde. É verdade que se divertia sendo seu próprio psicólogo, e ainda economizava um troco. Mas ainda não descobrira por que sentia arrepios às seis da tarde, pontualmente, todos os dias. E por que invariavelmente olhava o relógio justo nessa hora, num silêncio tapado a vácuo. Não contara a ninguém, mas era por isso que deixara de usar o aparelho no pulso desde os doze anos. Isso lhe dava certo alívio durante o dia, ainda que na hora marcada acabasse por se deparar com qualquer outro temível marcador do tempo. Entretanto, mais surpreendente para ele era o fato de saber, desde os quatorze, que morreria aos vinte e cinco. Desde então vivia com essa certeza. E nem por isso botava mais pressa em seu viver. Conhecia seus medos e sabia que poderiam se tornar realidade. Já seus sonhos..., jamais foi ambicioso e, por isso mesmo, não havia o que se concretizar. Quase morreu quando mais jovem, é verdade. Várias vezes, várias doses, escapou por pouco, por um triz. Esses trizes lhe pouparam, e tinham seu valor reconhecido. Isso porque aquela visão da janela, de seu próprio corpo no chão, afogado na última dose de inércia, já lhe era há muito familiar; mas essa familiaridade só seria despertada aos vinte e cinco.
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