
Sobre filas, acaso e timidez.
por Vítor Martinez.
Estava na fila dos Correios. Longa o suficiente para reler os quadros de aviso e procurar erros de gramática. Era um hobby que lhe acalmava nessas horas de tensão. Tensão porque já reparara no aumento de seu pulso. Aliás, constantemente checa seus batimentos, percebe as oscilações. Jamais soube o significado. O fato é que instintivamente se recusava a observar por demais seus companheiros de espera, por medo de neles perceber os problemas monstruosos que fatalmente apresentarão à única atendente do caixa. Insistia em afirmar a si mesmo que não estava ali por acaso. Ora, se não fosse por acaso, por que seria? Pensou nisso, mas há tempos aprendeu a não deter tempo no que não dá frutos. Melhor se esquivar o quanto antes da pouco evitável conclusão de que sua própria existência é casual. Vitimização é para os fracos. Mas como justificar a releitura dos quadros de aviso? O momento seria mais pulsante, mais vivo, se engrenasse conversa com o senhor atrás dele, que não conseguia se entender com os papéis numa mão, a outra de bolso em bolso na procura dos papéis certos. Além do que, os Correios não cometem erro de gramática, por sorte algum ortográfico, num momento de pressa na digitação. Por um instante sentiu que aquele senhor, se não estivesse tão ocupado com os papéis, pensaria também no porquê de compartilhar uma fila nos Correios. Pelas evidências, reler quadros de avisos não era um bom hobby. Procurar papéis, sim. Aliás, há muito é até emprego, pode-se mesmo conceituar como a base do funcionalismo público. O senhor lhe cutuca o ombro, deixando cair alguns extratos: era sua vez.
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