
Sobre nudez, milagres e omissões.
por Bruno Kronka.
Da janela via uma bizarrice sem fim: da janela, via-se. Seu corpo, seu próprio corpo estendido no chão. O formigamento, que seria natural sentir, dada a atipicidade do que vivia (se é que vivia), não viera, o que obviamente só aumentava sua angústia assintomática. Por outro lado, como um formigueiro a multidão já começava a obstruir-lhe a visão, único sentido que ainda o ligava ao que suporia ter sido sua última experiência carnal. Sim, porque provavelmente tivera outras. Certamente teria sido o primeiro Buda. Por que não ter reencarnado como Jesus, o Cristo? Não sem antes, na Grécia Antiga, ter refutado até chegar à máxima de que a consciência da ignorância é o fundamento do saber. Seu espírito, que era santo, certamente não soprara simplesmente em Pentecostes — uma de suas únicas aparições públicas desencarnado —, mas indubitavelmente deve ter-se refugiado, em forma de alma, em tantas casas quantas podia imaginar. Talvez não. Pode ter sido apenas um paranormal que, tanto em vida quanto agora, postumamente, pudera ver-se de um ângulo nada convencional, sempre mais-que-perfeito, sob cuja imensurável autocrítica sempre obrigou-se ao inequívoco, à não-falha, provocando, enfim o não-ato. Sim, a omissão pautava seus dias de pretenso tímido. Todo pretérito, fora das lembranças, é imperfeito. Adotava sempre o confortável pretexto da timidez, capaz de evitar justificativas delongadas para seu posicionamento na retranca. Ah, vá! A névoa da cautela velava, de fato, uma soberba divina. Acreditava que os milagres que poderia operar seriam demais para quem os testemunhasse; que seriam um excesso desarrazoado em um mundo tão irracional. Um poeta. Contemporizava sempre com os argumentos “Nesta atual pós-modernidade que nega o poder de contradizer o nonsense, quem sou eu para impor-me como a verdade e a luz? O ridículo a que me exporia traria inevitavelmente o ostracismo, até virtual, que é hoje o que há de mais real. Sem direito a 15 minutos de Youtube, ou bajulação pós-bigbróder. No media!”. Eloqüente e prolixo nas palavras. Mas a concisão de suas atitudes o preocupava agora. Só agora!? (Desnorteado após tantas inúteis reflexões, corre escada abaixo, desviando do fluxo de pessoas à sua frente como se pudesse esbarrá-las, ainda digerindo a idéia de seu estado ectoplasmático). Câmeras da imprensa já ali. Dos celulares também. E ele nu. Esquecera que dormia sempre assim. Começou a formigar.
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