sexta-feira, 13 de junho de 2008

Capítulo 3


Sobre infância, circos e ausências.

por Bruno Kronka.


Nunca uma escada havia sido descida tão rapidamente. Afinal, agora não tinha mais por que temer uma queda, uma fratura, um entorse, quebrar um dente, etc. E isso de certa forma o fez respirar melhor, ao invés de deixá-lo ofegante (já não seria tarde demais?). De qualquer forma, jamais se sentiu tão bem física, ou melhor, espiritualmente. Estava leve. Levitaria se pudesse. Será que não poderia, agora? Quando criança sonhava repetidas vezes que ao saltar na beira da piscina, ao invés de molhar-se, voava com o mero impulso. Quando era criança, também, se molhava ao sonhar com palhaços. Sempre teve medo daqueles monstros maquiados que supostamente deveriam animar festas de crianças, mas normalmente as assombravam. Mas sua mãe, incauta, sempre com boas intenções, contratava quando podia os pobres coitados que suavam como porcos sob narizes vermelhos, perucas laranja e caras em guache. Satisfazia mais aos ardis de seus coleguinhas que sempre lhes revelavam a careca sob a falsa cabeleira enrolada. Dava pena. Dos bozos e de sua mãe. Trabalhava por si e por ele, para dar-lhe tudo. Faltou-lhe o mais importante: atenção. Até o xixi na cama seu psiquiatra disse ser um propósito de seu inconsciente, seja lá o que isso for. Fosse como fosse estava ele ainda sem os dons de Santa Tereza, com medo de qualquer um que se assemelhasse ao Chuck e diante de uma multidão que comentava despudoradamente sem ressalvas “Devia ser um drogado mesmo, ou maluco”... “É nada, ouvi dizer que se jogou lá de cima quando soube que tinha Aids, por isso tava pelado”.... “Mãe, posso tirar uma foto pra levar na escola? Vai ser mó legal!”. Nem ele sabia ao certo o que havia acontecido. Seria ele de fato um suicida maluco-beleza? Mas causava-lhe revolta a idéia de servir de palhaço a uma turma de quinta série. A ambulância acaba de chegar. Perguntam se há algum parente do falecido. Todos se afastam e não há ninguém que o conhecia. Nessas horas gostaria de ter o conforto de sua mãe. Mesmo que ela usasse um desconfortável traje de palhaço para tanto. Queria mesmo é que ela armasse um circo.

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