
Sobre arrependimentos, mediocridade e efemérides.
por Vítor Martinez.
De repente, nesses pensamentos que às vezes vêm a nossa cabeça e a gente simplesmente acha graça, se dá conta de que nunca pôs os pés numa Assembléia Legislativa. Disso, com certeza, não se arrependera. Tomada a satisfação igualmente repentina e prazerosamente efêmera, percebe, logo a seguir, que a beleza do momento tratava-se também de um esforço involuntário de sua cabeça oca, a fim de contrabalançar sua farta Lista de Arrependimentos; Subitem: Omissões. Ou seja, no meio de tantas outras preterições indesculpáveis, queria achar grande coisa não guardar remorso de uma besteira dessas. Não obstante as iniciais maiúsculas, é claro que não havia uma lista propriamente dita, com título em negrito e numeração ordinária. Apenas gostava de imaginar que tinha sua vida em perfeita organização, e listas lhe pareciam bem-vindas para tanto. E com subitens, então, é coisa fina mesmo! Mas o fato é que, se não se importava com o destino mundano nos limites de sua pátria amada, evidentemente jamais se atreveu a pisar numa Assembléia de Deus, onde a deliberação transcendental rolava solta nas sessões e seções. Supôs que numa dessas poderia ter descoberto o que diabos era “Pentecostes”, e essa desconfiança na hora lhe fez sentir certo arrependimento. Enganara-se na intuição, como de costume. Felizmente não é burro feito Otelo
para engordar com desconfiança seus sentimentos. Assim, além de magro, foi também efêmero, coisa rara para arrependimentos (que, nesse caso, não mais entraria na Lista). Efêmero porque seu interesse por Mané Pentecostes já era tão fugidio quanto a fugacidade com que o invocara; estava era interessado se isso lhe valeria um feriado nacional ou não. Poderia ter proposto aos deputados. Vida medíocre. Se arrependimento matasse...
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